Como todos sabem em Londres há Portugueses por todo o lado.
Como todos sabem eu conheço bastantes. Pessoas que vieram comigo de Lisboa, que começaram a sua aventura ao mesmo tempo que eu, e pessoas que já cá estavam. Uns há mais tempo que outros mas todos há tempo suficiente para saberem bem as qualidades e defeitos de uma cidade enorme e absorvente como Londres.
Este fim-de-semana tive um jantar com Portugueses, uns já cá estão há algum tempo, outros acabaram de chegar.
No decorrer do jantar a conversa foi parar à política e à situação portuguesa actual.
Todos concordamos que Portugal, neste momento, não corresponde à terra das oportunidades que todos nós gostaríamos nem oferece as condições necessárias para se crescer pessoal e profissionalmente, pelo menos não a todos. Principalmente ao nível profissional as oportunidades são escassas e daí a quantidade de jovens que emigram para cidades "grandes" como Londres, Paris ou Bruxelas. Já não emigramos apenas para ter trabalho e juntar algum dinheiro. Emigramos para ter um trabalho MELHOR, prespectivas MELHORES e para viver uma experiência diferente, uma experiência que nos faça crescer, abrir horizontes, descobrir novas possibilidades...para depois voltar.
Na sequência da conversa sobre a política portuguesa alguém disse "Portugal precisava da ditadura nalguns campos, nomeadamente na educação".
E aí respirei fundo e depois disso confesso que me irritei.
Nenhuma das pessoas que estava naquela mesa viveu durante a ditadura, nenhuma daquelas pessoas viveu sem ser livre, sem poder expressar a sua opinião livremente, sem poder reunir-se com os amigos em grupos maiores do que três pessoas, sem poder aceder à cultura nacional e estrangeira sem ser censurada e sem poder emigrar para outros países de forma totalmente facilitada e aberta. No entanto, muitas das pessoas que estavam à mesa comigo defendiam a existência de uma ditadura "nalguns sectores da sociedade portuguesa".
Antes de mais a ditadura não se divide nem se aplica a determinados sectores. A ditadura é algo que se aplica a todo o país, que influencia tudo e todos e dita as suas regras.
Não posso concordar com o que foi dito naquela mesa.
Acho que é muito mais fácil apresentar como solução para a situação actual do país a existência de uma ditadura, um regime que decide por nós e que supostamente organiza o país sem termos uma palavra a dizer do que arranjarmos soluções mais viáveis e que honram a liberdade a que temos direito neste momento como votar, ter uma voz activa no cenário político actual, manifestarmos as nossas crenças de forma pública ou mesmo privada e vivermos de acordo com elas e começar por tentar mudar o nosso pequeno mundo antes de querer uma ditadura.
Se depois de tentarmos o máximo, depois de lutarmos por aquilo que acreditamos, depois de educarmos os nossos filhos a serem responsáveis e humanos, se depois disso tudo olharmos para as nossas vidas duvido que a ditadura ainda faça sentido aos nossos olhos.
Depois daquela conversa decidi pôr em prática a minha liberdade de expressão de escrever um post sobre este tema porque é algo que me perturba. A sensação que tenho é que o governo em Portugal tornou-se a desculpa perfeita para uma apatia muito grande. Se as coisas correm mal é sempre culpa do governo, mesmo que se trate de pequenas coisas que poderiam correr bem se as pessoas as cumprissem. Se as coisas correm bem é porque o governo se absteve de qualquer intervenção no processo porque se houvesse intervenção do governo correria mal de certeza.
Gosto da minha liberdade, adoro a ideia de ser europeia e poder mudar de país em busca de uma vida melhor e de cumprir sonhos sem sentir barreiras, sinto-me feliz e completa assim. Adoro votar, adoro poder expressar a minha opinião, adoro o meu blog, adoro falar em voz alta e rir-me com uma gargalhada forte sempre que alguém conta uma piada. Além disso, nunca deixarei as minhas decisões enquanto pessoa, cidadã e portuguesa em mãos alheias, muito menos nas de um governo que não me conhecerá como sou. Tenho total convicção e orgulho naquilo que escrevo e espero poder continuar a transmitir a importância da liberdade e também da responsbilidade às pessoas que me estão próximas tal como fizeram comigo até aqui.
Este desabafo nada tem a ver com o 25 de Abril que se aproxima mas sim com a necessidade de prestar uma homenagem às oportunidades que tenho aproveitado por ser livre e viver numa democracia!
We got to stand up if we want to be free!
4 comentários:
Para começar - 25 de Abril sempre!
E que bom seres tu a primeira, este ano, a lembrar-mo...
Mas que fizeram de tantos dos nossos sonhos, dos nossos ideais?
O nde está o brilho, a loucura, o estrondo da liberdade tão desejada, da grande festa única do primeiro 1º de Maio?
T não o viveste mas conhece-lo também através de nós... que emoção!
Um dos cravos vermelhos desse dia é todo teu.
Vive de forma consciente e responsável a LIBERDADE! Baci ZIA
All Right!
É isso mesmo querida, não podemos deixar que ninguém decida por nós ou nos restrinja as liberdades. Devemos sim exigir que nos dêm a melhor e mais abrangente (e multicultural) educação possível para podermos sempre fazer escolhas informadas. Quem defende a ditadura ou a proibição imposta de qualquer liberdade tem sérias dificuldades em ver para além do seu próprio mundo, em se colocar no lugar do outro, e sobretudo em perceber o seu papel. São pessoas que não querem participar na sociedade e optam pela opção mais simples: a de obedecer a ordens. Temos de fazer, cada um de nós, o melhor que podemos pela sociedade, é a nossa obrigação enquanto cidadãos e membros de uma comunidade, de um país, de um mundo.
Obrigada tb pelo post :) O 25 de Abril e o 1º de Maio estão aí à porta, sabe bem lembrar estas lutas!
Bjs
Eu já tinha uma "secreta" admiração por ti embora quando se é muito mais velho haja por vezes uma formatação que analisa os actos à luz da nossa forma de estar ou de como "se deve ser".
O teu texto sobre o sentido da ditadura e da liberdade é muito gratificante vindo de quem nasceu depois do 25 de Abril. É urgente informar os jovens que invocam a ditadura porque a História tem ciclos e só com "guerreiros" não se evitam os retornos.
Há dias ouvi, num supermercado, um trabalhador que podia ter a minha idade a invocar Salazar ... Respondi-lhe com a impotência de quem não consegue em duas ou três frases, exprimir indignação, esclarecer e lamentar.
Não se pode deixar de estar alerta e de intervir para defender a liberdade com direitos e deveres,a crítica construtiva e a participação na construção de uma cidadania responsável.
Adoro ler o teu blog! É inspirado, sagaz e divertido. Além disso, faz-me pensar :) Cá vai um dos pensamentos...
Ninguém na sua perfeita lucidez deseja realmente uma ditadura. Só por distracção, ou intenção criminosa. Esse pessoal que disse isso enquandra-se concerteza no primeiro grupo. Até porque dizer "Portugal precisava de uma ditadura nalgumas coisas" é uma afirmação com dois erros de raciocínio. Primeiro ninguém, excepto o ditador, beneficia plenamente de uma ditadura, (e, não se enganem é sempre um só quem dita, os outros apenas sobrevivem melhor ou pior, sendo que o pior, de tão horrendo, é inaceitável) e a segunda é que não se pode ter uma ditadura "apenas em algumas coisas", ou é tudo ou não é nada, pois essa é a própria definição de ditadura. Ou seja, foi uma afirmação feita sem pensar nada no assunto. Claro, que para alguém que ama acima de tudo a liberdade, ouvir semelhante coisa, mesmo que por disparate, faz tremer de medo. Mas pensa assim, alguém só é capaz de afirmar uma coisa dessas até ao momento em que a sua própria liberdade é posta em causa. Por isso é muito fácil de confrontar essa pessoa, basta fazer-lhe duas perguntas: quem decide quem vai ser o ditador? E se tu, ou aqueles que te se são mais queridos, não gostarem ou não concordarem com ele?
Infelizmente, a democracia é o sistema mais justo que conseguimos inventar até agora, enquanto civilização. E digo infelizmente porque está longe de ser perfeito. A democracia vive do capitalismo como as pessoas do ar que respiram. E, da mesma maneira que o oxigénio dá vida mas também a tira por oxidação, o capitalismo por um lado dá vida à nossa sociedade e por outro corrói-a. Mas é o melhor que temos, porque é o sistema que melhor protege as liberdades individuais de cada um. E dá a todos, quando nascem, igual oportunidade. Depois, cada um, mais boa pessoa ou menos, com mais sorte ou menos sorte, faz o melhor que o seu engenho permite. Daí o sol brilhar mais para uns do que para outros, e brilhar mais nuns países do que noutros. Isso, porém, não é injusto.
A história e o presente estão carregados de exemplos que provam que uma ditadura até pode desenvolver uma sociedade, mas que só o faz à custa do sofrimento atroz de milhares de indivíduos, incluindo crianças. E isso não é aceitável. Cabe a cada um ensinar isso às nossas crianças, para que no futuro possam tomar melhores decisões. E, também, cabe a cada um fazer o melhor que pode para contribuir para uma sociedade mais justa e próspera, mas isso é uma cena que dá uma trabalheira dos diabos.
continua a bloggar, eu vou continuar a ler (e qd conseguir tb comento :)
como isto é um blog internacional, aqui fica uns
grous bisous
g
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